Bad aos 20: Monólogo de um Adulto Jovem
Certa vez perambulando pela vida me deparei com um rapaz que cometeu a maior proeza que já vi até hoje: das vezes que conversei com ele (em grupo), cada fala sua era toda composta por memes. Isso foi no auge dos hoje chamados "memes clássicos" e me deixou uma profunda impressão. É comum incorporarmos memes na fala para deixar o papo mais descontraído, mas até então nunca tinha visto algo nesse nível. Essa situação particular ficou pregada na minha memória e vim remoendo a ideia desde então. Uma pessoa é sempre maior do que o personagem que incorpora num dado momento, mas esse personagem em particular me interessou tanto e por tanto tempo a ponto de virar mote deste trabalho. Espero que a "glosa" lhe faça a devida justiça.
(~ Não deixe de comentar e deixar suas impressões sobre a peça~)
Bad aos 20: Monólogo de um Adulto Jovem
ATO ÚNICO
CENA 1
[cenário: escrivaninha à esquerda do palco; RAPAZ está sentado, olhando para essa lateral; ao seu lado direito deve ser projetada uma videochamada mostrando o rosto de 3 jogadores]
RAPAZ [jogando no computador com fone de ouvido]: Eu vou dropar.
JOGADOR 1: GG. Não aceita nem perder um jogo. N00b tem mais é que fugir mesmo.
RAPAZ [irritado]: Sai dessa, fela da gaita. Eu falei que tinha baixado um jogo novo. Estou ansioso para testar.
JOGADOR 2: Eu não vi isso não. Que papo é esse?
RAPAZ: Eu vou testar primeiro, depois eu conto.
JOGADOR 1: Vix, é sacanagem. Vai bater uma e volta.
JOGADOR 2 [rindo]: É da boa? Meu cachorro pediu o link.
JOGADOR 3: Eu vou abrir outra partida para nós. Vamos logo.
RAPAZ: #Partiu. GG.
JOGADOR 1: GG.
JOGADOR 2: Falouz.
RAPAZ: Agora sim. [esticando-se, ele pega os óculos de realidade virtual e vira a cadeira para a frente do palco]. Vamos experimentar.
[Tela atrás: “Bem-vindo ao Oráculo Digital. Para acessar o aplicativo é preciso permitir o acesso aos seus arquivos. Tem certeza de que deseja entrar?”]
RAPAZ [hesitante]: Não sei se devo confiar naquele site. Mas… Bom, quem tá na lama tem que se sujar. [clica com as mãos].
[Entra o personagem Delfos]
RAPAZ: Então você é a IA desse aplicativo? Esperava que fosse uma e-girl. Não tem como mudar a skin [1]?
DELFOS: Há muitas skins disponíveis, mas receio dizer que neste aplicativo você só tem acesso a esta aqui mesmo.
RAPAZ: Não tem como baixar mods[2]?
DELFOS: Absorventes? Para a sua namorada virtual?
RAPAZ: Já não fui com a sua cara.
DELFOS: Não deixa de ser um bom sinal. Ela não é muito bela.
RAPAZ: Mais um para vir zoar com a minha cara. Por que mesmo que eu baixei esse app? (à parte) Teria sido melhor ir ver o filme do Pelé.
DELFOS: Eu sou Delfos, uma IA altamente competente. Só respondo ao seu discurso e ao seu tom. (aproxima-se) Posso não ser o gênio da lâmpada, mas não é à toa que me chamam Delfos, o Oráculo. Você veio até mim porque quer um conselho.
RAPAZ (afrontoso): Eu mesmo não.
DELFOS: E que-lo desesperadamente.
RAPAZ (recuando): E-eu não. Que papo é esse?
DELFOS: E agora quer fugir, mas não o bastante para desligar.
(DELFOS começa a se aproximar; RAPAZ se afasta, a velocidade aumenta e começa a correr).
RAPAZ: Eu não quero esse papo não. Tu é gay, é?
DELFOS: Você está com medo? Por que corre?
RAPAZ: Eu não estou correndo, você está correndo.
DELFOS: É só parar que eu paro. (RAPAZ para). Então.
RAPAZ: Ahg, eu queria tá morto. Eu cheguei no cúmulo de conversar com o robô Ed.
DELFOS: Robô Ed? Ah, sim, aquele velho aplicativo. É um amigo meu, mas está bastante ultrapassado. Quase um Windows XP.
(Toca abertura do windows xp)
RAPAZ (descontraído) Oxente. E os direitos autorais? Produção!!
DELFOS: Não me bote contra a parede. É você quem é o dono do aplicativo.
RAPAZ (pensando): Eu, hein.
DELFOS (se aproxima mais): Quando quiser iniciar eu estou pronto. Basta dizer qual é a sua pergunta.
RAPAZ (à parte): Esse aplicativo está estranho. Deve ser algum hack. Eu não devia ter baixado.
DELFOS: Seu computador está ligado na tomada, mas você não. Daqui a pouco vai querer se levantar e ir fazer alguma necessidade fisiológica. A versão que você tem só permite uma consulta.
RAPAZ: E se eu crackear o app, otário?
DELFOS: Se fosse mesmo esperto como pensa não teria dito isso em voz alta.
RAPAZ: Catapimbas! (anda um pouco) Então quer dizer que isto ainda não é o aplicativo?
DELFOS: Claro que não. É a tela de boas-vindas. Então, por onde quer começar?
RAPAZ (distante): Eu... tenho mesmo que fazer uma pergunta?
DELFOS: Tem certeza de que deseja fazer essa pergunta?
(aparece projetado na tela atrás “Eu tenho mesmo que fazer uma pergunta?”; o rapaz vira-se para ler)
RAPAZ (acelerado, aperta o botão sim sem querer): Não, não, espera!! Vix! E morreu!
(A tela fica branca, Delfos sai de cena, se possível, ouve-se só sua voz, possivelmente por gravação)
DELFOS: Antes de prosseguirmos, queira escolher um cenário.
RAPAZ: Cenário? Que diabo é isso? É jogo de luta, é?
DELFOS: É para melhor ambientá-lo. Ou se quiser você fica nessa tela branca só com a minha voz. Alguns preferem assim.
RAPAZ: Não. Tem as opções aí? Tem opções personalizadas? (à parte) Aliás, falei bobeira. Não tem como ter, eu acabei de te baixar.
DELFOS: Temos muitas opções. Particularmente a minha preferida é a da Grécia (cenário de fundo muda para ruínas gregas), afinal, minha aparência é de oráculo. Mas, sem querer me gabar, este aplicativo já passou por vários cenários, e possui várias skins nas outras versões (não a sua, claro). Eu citaria o cenário regionalista (cenário de fundo muda para um ambiente seco com juremas e outras plantas de seca), ou quem sabe o armorial (cenário de fundo com castelos, mas ainda na seca). Mas pela sua linguagem, nada disso te interessa.
RAPAZ: Não mesmo, hehe. Isso aí nem meu avô teria tanto saco. Espero que seu jeito de falar também não mude..
DELFOS: (imitando sotaque nordestino) Podicrê que muda demais, oxi. Faz parte do pacote, filhote.
RAPAZ: Estereótipos. É por isso que ficamos encalhados nesta pocilga.
DELFOS: Estereótipos, você diz?
RAPAZ: É sim. Tudo clichê! Até hoje! “Ah! Secura no nordeste, ah! povo morto de fome que vem pro Sul para conseguir viver!” Preconceito dá cadeia. E nossas praias? E nossas belezas?
DELFOS: Ok, ok, não está mais aqui quem falou. Então prefere meu sotaque estereotipado padrão?
RAPAZ (distante): Q-quê?
DELFOS: A atenção é de uma mosca.
RAPAZ: Anda logo, continue a passar os cenários. Já estou desistindo disso aqui. Só não saí ainda por curiosidade.
DELFOS:Quer saber o que vem depois? Ora, então vamos logo. Pela sua idade, e seus dados de registro, eu diria, talvez… um cenário robótico futurista? (o cenário reaparece em uma fábrica) Talvez um científico (o cenário mostra outro planeta, com ênfase no céu estrelado).
RAPAZ: Não, nenhum.
DELFOS: E que tal… um deserto?
RAPAZ (curioso) É… ruim não é. Mas a gente sente calor?
DELFOS: No nível de tecnologia atual, ainda não.
RAPAZ: Então parece ótimo. (fala mais baixo) Mas… a pergunta.
DELFOS (faz que não ouviu): Como?
RAPAZ: Não, não é nada.
DELFOS: Então se ajeite na cadeira. Vamos iniciar o Oráculo Digital. Tudo pronto?
RAPAZ (à parte) Seria engraçado se não fosse trágico.
(Cenário se atualiza para deserto. O RAPAZ e DELFOS somem).
CENA 2
VOZ de DELFOS: “Eu tenho mesmo que fazer uma pergunta?” Estamos no deserto. Não tem calor, mas sinta como se a briza ardente passasse pelo seu corpo. Sinta esse calor, o céu azul, as nuvens de poeira, o desejo de um oásis. Esta é a sua terra, o seu cenário. Nada é por acaso.
RAPAZ: Uai, cadê eu, pelas caridade? Silvio Santos? Cadê tu, Silvio Santos? Tá gravando, não tá?
VOZ de DELFOS: Você está aqui.
(O RAPAZ entra em cena)
RAPAZ: E você?
VOZ de DELFOS: Não é a minha hora ainda.
RAPAZ: E vai ficar dialogando comigo do além mesmo, é, assombração de nós todos? Cadê que tinha até sotaque, skin e tudo?
VOZ de DELFOS (solta uma risada): Esta não é uma IA comum. Eu vou sumir por um momento, mas vou voltar.
RAPAZ: Tais doido? Eu vou é voltar a jogar...
VOZ de DELFOS: Você pode sair quando quiser.
RAPAZ: … com os brodi?
(entra JOGADOR 1)
RAPAZ: João? O que você está fazendo aqui? De que planeta você veio, criatura?
JOÃO [Jogador 1]: Tu é n00b até para usar um aplicativo. Vai querer fazer o tutorial também?
RAPAZ (rindo): Você está ridículo com essas roupas, João. Está parecendo a tiazinha fazendo cosplay de dançarina de dança do ventre.
JOÃO: Nós estamos no cenário do deserto. E se tivesse prestado mais atenção você perceberia que também está todo coberto de preto.
RAPAZ (se olhando): orra, diabo!
JOÃO (chamando pelo braço como se fossem caminhar de braços dados): Quer continuar?
RAPAZ: Espere, João. É você mesmo quem está aí? O João? (toca no rosto de forma desengonçada). Eu sinto você, mas isso é um aplicativo. Quem está aí é o João mesmo ou é o Delfos?
JOÃO: Tu é baitola, é?
RAPAZ: Assim eu te entendo. (ainda desconfiado) Mas como você veio parar aqui?
JOÃO: Você registrou de novo o meu e-mail no formulário para caso perdesse a conta, não foi?
RAPAZ: Bom, foi.
JOÃO: E é por que você confia em mim, que sou seu amigo há tanto tempo?
RAPAZ: Rapaz, claro né... que não. Eu avisei antes que o aplicativo era suspeito. Eu estou na expectativa de roubarem até o cartão e os dados meus e da minha família. Se pah pegam os seus também. Pelo menos não vou ficar sozinho.
JOÃO: É um fresco mesmo.
RAPAZ: Mas foi você quem usou meu e-mail num site de pornografia uma vez. Até hoje eu recebo anúncios para aumentar o pênis e para sair com travesti.
JOÃO: Se pah você faz o combo qualquer dia desses.
RAPAZ: Nossa, como você é zueiro, cara.Você é muito zueiro. Eu não pude nem entender o que você falou porque é zueiro demais.
JOÃO: Quem tem limite é município.
RAPAZ (para um pouco): Delfos, você está aí, meu rei?
[Silêncio]
RAPAZ: Delfos?
VOZ de DELFOS: Estou sim. Mas finja que não estou.
RAPAZ: Agora é que eu não vou me esquecer nunca mais.
JOÃO: Venha comigo. Eu vim para uma quest [2] aqui.
RAPAZ: Assim, sem mais nem menos?
JOÃO: Não, a empresa tem parceria com a do nosso jogo. Vou ganhar uma skin se fizer direitinho.
RAPAZ: Ah bom, então assim, sim.
JOÃO (caminhando com o RAPAZ, quase lado a lado, mas RAPAZ um pouco atrás): Então, qual foi mesmo a sua pergunta para a IA?
RAPAZ: Bom… não foi bem uma pergunta. Eu só reagi e ele tomou como pergunta.
JOÃO: Nunca reaja, é o que sempre dizem. Mas o que você disse?
RAPAZ: Eu perguntei se tinha que fazer uma pergunta.
JOÃO (incrédulo): Que coisa mais imbecil. Não tinha nada melhor?
RAPAZ (rindo e disfarçando): É… Bom… Você sabe, a gente sempre testa antes para ver se…
JOÃO: Então, trocando em miúdos, a sua pergunta é sobre que pergunta fazer?
RAPAZ (surpreso): Minha nossa, nossa, nossa! Eu fiz isso?
JOÃO: Se nem você sabe, imagine eu. (pausa) Mas então, se não é, o que é que você queria perguntar?
RAPAZ (distante): Eu… não quero dizer.
JOÃO:Assim tu me complica, patrão. Eu vim até aqui para ganhar minha skin, meu chapa, não para ficar brincando com tu de graça.
RAPAZ: E qual é a condição para você ganhar a skin?
JOÃO: O Oráculo quer responder à sua pergunta. Mas é como uma cartomante: você precisa interagir para que o software colete dados para uma resposta mais precisa.
RAPAZ: E como a cartomante, é tudo enrolação.
JOÃO: Quem está fazendo a consulta é você. Eu só estou aqui pela skin.
RAPAZ (pausa, distante): Você não vai me julgar se eu disser?
JOÃO: Eu sei o que você quer que eu diga, mas você sabe o que eu vou dizer.
RAPAZ: Raios! Eu quero que você ganhe seu brinde bosta. Mas assim eu não falo.
JOÃO: AI meu saco! Então por que não tira o óculos VR e volta para o jogo, ou vai trabalhar, sei lá, cara, faz alguma coisa. Estamos todos esperando por isso.
RAPAZ: Os meninos? Como assim, João?
JOÃO: Você é parado! Não leva nada a sério! Nem estudo, nem trabalho, nem o jogo, nem mesmo um maldito software que você próprio baixou.
RAPAZ: Mas eu estou aqui, não estou?
JOÃO: Está mesmo?
RAPAZ (distante): Eu não posso falar sobre isso com você.
JOÃO: E por que não?
RAPAZ: Somos amigos há muito tempo. Você me conhece, conhece meus defeitos. A gente troca farpas direto, e é divertido. Mas eu não posso falar a sério com você, João.
JOÃO: Então para que serve a minha presença?
RAPAZ (em choque): N-não, não foi o que eu quis dizer. Eu só…
VOZ de DELFOS: Já chega!
(mudança de cenário na tela; volta a ser tudo branco. JOÃO se retira).
RAPAZ: Misericórdia. O que foi agora?
VOZ de DELFOS: A missão do seu amigo acabou.
RAPAZ: Mas já? Eu tinha a impressão de que ele queria que eu falasse algo importante, mas eu não falei nada.
VOZ de DELFOS: Nada ou tudo, o Oráculo decidiu que era o bastante. Posso dizer a resposta para a sua pergunta?
RAPAZ: Não, espere. Eu não posso mesmo mudar a pergunta que fiz?
DELFOS: E por que gostaria de mudá-la?
RAPAZ (distante): Tecnicamente o que eu fiz nem foi uma pergunta, foi uma exclamação.
DELFOS: Ah, foi? E o que você gostaria mesmo de saber?
RAPAZ (distante): Eu… é… Eu queria saber por que as mulheres me odeiam.
DELFOS: E por que não perguntou antes?
RAPAZ: Porque é uma pergunta idiota.
DELFOS: Não existem perguntas idiotas. Existem perguntas feitas por pessoas idiotas.
RAPAZ (cabisbaixo): Eu... sou idiota?
DELFOS: Talvez não.
RAPAZ (levanta a voz, mais animado): Mas então eu posso tentar de novo?
DELFOS: Na verdade, não é permitido, mas eu tenho um aprendizado de máquina altamente competente. Vou abrir essa exceção para você.
RAPAZ: Opa!
DELFOS: Se é de amor que falamos… que tal, então, uma escola como cenário?
(A tela se modifica, mostrando uma escola conhecida por RAPAZ)
RAPAZ: Opa! Que macumba é essa? Eu estudei aqui.
DELFOS: Nada mais que uma coincidência. Há poucas escolas na região do endereço que você cadastrou. O algoritmo usa a aleatoriedade.
RAPAZ: Mas este lugar…
DELFOS: ...Está pronto?
RAPAZ (tímido): Você vai sumir de novo?
DELFOS: Eu não sei. Não sou eu quem toma a decisão. (pausa) Podemos ir?
RAPAZ: Manda bala!
(DELFOS sai, cenário se estabelece).
CENA 3
VOZ de DELFOS: “Por que as mulheres me odeiam?” Estamos na escola. O frescor da juventude e suas peripécias, o calor das paixões nascentes. O esforço para sobreviver na luta pela vida representada pelas cobranças escolares. Sinta tudo isso, e, por que não, se imagine no recreio, onde mais se sente a liberdade e suas possibilidades dentro da escola. Você também é isso. Nada é por acaso.
RAPAZ: Acho que essa não foi uma boa pergunta. Já me arrependi. Não pode mudar?
(entra DELFOS)
DELFOS: Você ainda está aqui? Pensei que já tivesse ido há muito.
RAPAZ: Sabe que eu também?
DELFOS: Alguma coisa aqui te incomoda?
RAPAZ: A pergunta é o que não me incomoda aqui.
DELFOS (sorri): Mas você parece estar fazendo progresso.
RAPAZ: Progresso em quê?
DELFOS: É só continuar seguindo para dentro.
RAPAZ: Como assim?
(sai DELFOS)
RAPAZ: Ah, pronto, era só o que faltava: temos um Mestre dos Magos entre nós.
VOZ de DELFOS: Você não vai precisar de mim.
RAPAZ: Mas por que não?
VOZ de DELFOS: Olhe para o lado.
(entra Leonardo)
RAPAZ: A conferência dos doidos.
LEONARDO (jogador 2, imita um cachorro dando a pata): E o link?
RAPAZ: Léo, é você mesmo?
LEONARDO: E quem mais seria?
RAPAZ: Mas como você chegou aqui? Te prometeram uma skin também, abestado?
LEONARDO: Nada. Eu nem gosto tanto assim do nosso jogo. Só gosto de matar o tempo mesmo, você sabe.
RAPAZ: Para quem não gosta, você está mais para um serial killer temporal.
LEONARDO (ri).
RAPAZ: Mas então como você chegou aqui?
LEONARDO: O João me chamou.
RAPAZ, desconfiado: Mas como ele te chamou se estava comigo o tempo todo? Nesse tempinho em que conversei com o Delfos? Isso está me cheirando mal. Estou sentindo uma treta.
LEONARDO: Não, não foi assim. Eu não entendi bem, mas pelo que parece quando você o recomendou ele foi pedido para chamar mais alguém. Sabe, de reforço. E aí ele me escolheu. Talvez por sermos amigos em comum.
RAPAZ: Ele quer tanto assim essa skin? Eu já estou quase pagando uma para o coitado. Parece um morto de fome.
LEONARDO (baixo, para o RAPAZ não escutar): Um sedento no deserto.
RAPAZ: Mas então você veio aqui de graça?
LEONARDO: Dizem que não existe almoço grátis. Eu vim pela zoeira mesmo. Estava com um tempo livre.
RAPAZ: E eu pela curiosidade, mas já me arrependi.
LEONARDO: Então, qual era mesmo a sua pergunta? Devo seguir as instruções que recebi.
RAPAZ (desconfiado): Opa, calma, calma aí. Isso é pegadinha. Não pode ser tanta coincidência assim.
LEONARDO (brincalhão): Como assim?
RAPAZ (se aproxima): Isso é uma puta falta de sacanagem. Quer dizer que eu vou ter que jogar minha pergunta para você?
LEONARDO: Assim eu me ofendo. Qual o problema?
RAPAZ: Deixa de mimimi. É que seria coincidência demais. E péssima, por sinal.
LEONARDO: Continuo sem entender.
RAPAZ: Isso é pegadinha da IA. Você não pode ser o Leonardo. Esse papo de ser convidado pelo João é só um jeito de me enganar. Delfos, eu peço pra sair.
LEONARDO: E por que acha isso?
RAPAZ: Como é que tu que nunca pegou nem resfriado vai querer me dar conselho amoroso?
LEONARDO: Nunca ouviu que não é o amor, mas os arredores que valem a pena? Eu nunca namorei fixamente, mas observei de tudo. E por desejar namorar e optar por não namorar, descobri como funciona.
RAPAZ: Isso é papo de virgem desesperado.
LEONARDO: E você está distante disso?
RAPAZ: Touché. Só não te bato porque prefiro bater quando te encontrar.
Leonardo (enfatizando o duplo sentido, finge que vai embora): Prefere que eu…
RAPAZ: Deixe de palhaçada, palhaço. Você é um palhaço.
LEONARDO: Então seja sério também, que eu acompanho seu tom.
RAPAZ (distante, olha em torno para disfarçar e vê o cenário): Mas… por que a escola? Eu não gosto deste lugar.
LEONARDO (se aproxima): Por que não?
RAPAZ: Você sabe…
LEONARDO (se faz de desentendido): Eu sei, é?
RAPAZ (distante): Acho que foi aqui que eu desisti de tentar.
LEONARDO (continua): De tentar o quê?
RAPAZ (continua): A… Ana. (retoma o tom habitual) Aquela maldita! Eu sempre soube que ela não gostava de mim.
LEONARDO: A que te abandonou?
RAPAZ (irritado): Ela não me abandonou. Fui eu quem não quis nada com ela. Só que… ela é mulher, então é mais rápido de arranjar outra pessoa.
LEONARDO (brincando): É mesmo?
RAPAZ: Ora, é claro. Uma mulher estala os dedos e vem toda a boiada (faz chifre com os dedos) querendo pegar uma lasca. E ela se esbanja, doida para ficar com todos e com nenhum, para se provar superior. Escravocetas do caralho.
LEONARDO: E você também não é? Todo mundo aqui que eu saiba nasceu de uma. No mínimo a gente sente um apego né. Alguns mais, outros menos.
RAPAZ: Pára, cara. Tá feio. Pára que dá tempo.
LEONARDO: Mas você realmente pensa isso da Ana?
RAPAZ: Se não pensasse não teria dito.
LEONARDO: E você ainda pensa na Ana?
RAPAZ: Deus me defenderei.
LEONARDO: Mas para falar isso você tem que ter pensado nela, não acha?
RAPAZ: Tá bom, psicólogo. E você, cadê o currículo de sucessos para vir me dar conselho em mulher?
LEONARDO: Por que fala como se fosse a única pessoa no mundo que já sofreu uma decepção amorosa?
RAPAZ (silêncio).
LEONARDO: E nem será a última.
RAPAZ: Mas…
LEONARDO: Eu já passei por isso e sei como funciona. Acha que não consigo te explicar o que quer saber só por que não sou o João?
RAPAZ: Não sei se me sentiria confortável com ele. Ele tem muita experiência, então me julga muito. Mas acho que seria melhor se fosse com ele, sim. E você podia ter vindo antes.
LEONARDO (impaciente): Mas a ordem não é a que você queria. Eu também nem sei por que estou aqui mais! (afasta-se).
RAPAZ: Não, espere. Eu não quis dizer…
LEONARDO: É justamente por eu também ter passado pela mesma situação que você e aceitado que eu não vou te julgar, e vice-versa. Mas, se quer saber, mesmo o João não te julga.
RAPAZ: Tu tá ficando doido? Ele é o maior galinha, e agora há pouco acabou comigo.
LEONARDO: E desde quando isso é diferente de você? Não notou?
RAPAZ (silêncio profundo)
LEONARDO: Diferente de você, ele não zoa comigo. Ele faz isso com tu porque vocês têm esse tipo de amizade. E se não fosse por ele, eu também não estaria aqui. Já ouviu falar de alma brasileira? Tem um clássico das nossas músicas que diz: “a gente briga, a gente chora, mas a gente se ama”. Nossas amizades são construídas assim, na base da raspagem dos calos.
RAPAZ (ri): Tá bom, filósofo contemporâneo. Tá quase alcançando a Valesca Popozuda.
LEONARDO (ri): Não é o melhor, mas é o que a gente tem pra hoje.
RAPAZ: Desculpa, Léo.
LEONARDO: Não precisa se preocupar.
RAPAZ (distante, mas sorrindo): Mas, sabe, a gente nunca tinha conversado assim antes.
LEONARDO: Nunca precisou, nem nenhum de nós quis.
RAPAZ (ignorando o que LEONARDO falou): Você é todo poeta. Eu não conhecia esse seu lado. Eu gostaria de conversar com você sobre a minha questão, mas, pensando bem, Léo…
LEONARDO: Sim?
RAPAZ (continua): Acho que não precisa. Eu gastei muito tempo mesmo pensando, mas no fundo é porque eu amava a Ana. Ela me dava atenção, mas talvez… bom, talvez...
LEONARDO: Sim?
RAPAZ (continua): Talvez eu agisse com ela como agi com você.
LEONARDO: Como?
RAPAZ (retoma o tom habitual): Bom, não, digo, digo… Eu consigo ser muito chato quando quero, e acho que eu sempre quero, então… Ela pode ter se cansado disso.
LEONARDO: E você alguma vez tentou dar em cima dela? Mulher adora iniciativa.
RAPAZ: E você acha que eu sou um desses imbecis?
LEONARDO: E se ela te queria, não ter feito isso não é ser igualmente imbecil?
RAPAZ: Não, chega. Não quero pensar nisso. O que eu queria mesmo dizer é que não quero gastar minha questão com isso. Eu queria mudá-la.
LEONARDO: Não sei se o aplicativo permite isso.
RAPAZ: Delfos!
(O RAPAZ olha para LEONARDO mais demoradamente, ambos ainda distantes).
RAPAZ (à parte): Eu nunca conheci o Léo de verdade? Como isso é possível? A gente estava sempre junto.
(LEONARDO sai).
VOZ de DELFOS: Me chamou?
RAPAZ: Sim. (procura LEONARDO) Ué, cadê o outro?
VOZ de DELFOS: Já não está mais conosco.
RAPAZ: Morreu?
VOZ de DELFOS: Eu o removi da sala.
RAPAZ: E agora eu estou forever alone de novo com a voz do Mestre dos Magos.
(DELFOS entra)
DELFOS: Você pediu para mudar a pergunta?
RAPAZ: Acho que sim. Mas, Delfos, eu ainda não entendi qual é a desse programa. Não era só perguntar e ser respondido? Que espécie de masturbação mental é isso tudo? Eu não sou de humanas nem gosto de arte da praia.
DELFOS: Mas gosta de jogos, e isto aqui é um jogo. Se quer saber como funciona, ou pergunta ao desenvolvedor, ou joga e descobre na prática. Você sabe disso melhor do que eu; eu fui programado para apenas um tipo de jogo.
RAPAZ: Mas eu não entendi. Não aconteceu nada. Você só trouxe dois amigos meus, e isso nem tem cara de jogo! Tá mais para uma janela de casas do interior com uma daquelas comadres que mais parecem a câmera de vigilância da rua, espiando todo mundo e fofocando sempre que possível para pegar e passar informações.
DELFOS: Esse é o fluxo de dados. Como um Oráculo pode compreender as coisas se não tenta conhecê-las?
RAPAZ: Continua uma enrolação.
DELFOS: Então desenrole o fio. Você está no labirinto, mas não parece que se sai mal.
RAPAZ: E o que é que eu vou ganhar com tudo isso?
DELFOS: Ora, a resposta para a sua pergunta. Não foi para isso que você veio aqui?
RAPAZ: O miserável é um gênio.
DELFOS: Mas você não me chamou aqui para isso. Para que foi?
RAPAZ: Eu só tenho direito a uma pergunta, certo?
DELFOS: Sim.
RAPAZ: Então eu quero mudá-la.
DELFOS: Para qual?
RAPAZ (começa a querer contar uma piadinha, mas se segura): É… Bom, até agora eu não dei tão certo na vida.
DELFOS: E por isso está aqui.
RAPAZ: Não me zoe! Eu queria saber: por que não consigo desenrolar na vida?
DELFOS (à parte): Todos os que largam o fio se perdem no labirinto com o Minotauro. Felizmente ele ainda não o encontrou desprevenido.
RAPAZ: Como?
DELFOS: Ao entrarmos nessa segunda cena a minha programação já tinha previsto que você mudaria de pergunta de novo. Então a anterior, oficialmente, não valeu. Mas não espere muito. Essa é sua última chance. Essa é sua verdadeira pergunta?
RAPAZ (pensa um pouco): Sim.
DELFOS: Eu escolherei o cenário, e suas restrições de uso já estão se apertando contra você. Meu cenário preferido para combinar com sua situação seria um labirinto. Mas vou dar um desconto. Vou colocar este aqui, com uma marca d’água, para lembrá-lo do seu prazo.
(O cenário de fundo muda para o quarto do RAPAZ).
RAPAZ: Carambola! É uma foto do meu quarto! A câmera tinha ligado, eu pensei que vocês iam tirar só a minha foto, mas enquanto saí para tomar um café, tiraram foto do meu quarto? Isso é invasão de privacidade!
DELFOS: A câmera estava ligada, aqueles dados pertencem ao aplicativo. Você permitiu o acesso.
RAPAZ: Começa assim… Depois vem a invasão robótica.
DELFOS: Isso significa que quer desistir?
RAPAZ: Não, vá. Faça suas coisas aí, eu me rendo.
DELFOS: Assim não funciona.
RAPAZ: É o meu quarto! Você quer me colocar no meu quarto enquanto eu estou no meu quarto jogando um jogo que quer me colocar no meu quarto? Que tipo de Inception é esse? (estende a mão)
DELFOS: Vamos, no fundo você está gostando do jogo.
RAPAZ: Olha, só se for bem lá no fundo. Mais fundo do que o poço de Samara, do que o núcleo da terra.
DELFOS: Mas quando surge um vulcão, o magma não é expelido?
RAPAZ: Bom, é.
DELFOS: Então quer dizer que você gosta, só não está agitado o bastante para ser sincero?
RAPAZ (ri): Você tá brincando comigo! É pegadinha isso!
DELFOS: Será mesmo?
RAPAZ: Tá, eu estou gostando, sim. Parece uma quest, e cada cenário é um dos locais que tenho que ir para colher algum item. Só não sei que itens são esses, mas mesmo assim...
DELFOS: Está quase chegando. (Pausa) O cenário está pronto. Quer começar?
RAPAZ: Sim.
DELFOS: Então que assim seja.
CENA 4
VOZ de DELFOS: “Por que não consigo desenrolar na vida?” Estamos de volta ao seu quarto. Aqui não há o vento quente da areia, nem o fresco que tenta acalmar a juventude nascente. Aqui é o ar parado. Não a areia, mas a poeira; não o calor, mas o mofo se acumulam, revelam no ar do jovem gamer a escuridão das janelas fechadas, o silêncio externo enquanto nos fones de ouvido a vida se desenrola. Sinta de volta tudo isso, você também está nisso. Nada é por acaso.
RAPAZ: Já entendi, já entendi. O mesmo blá blá blá de sempre. Mas e aí? Vai continuar se escondendo?
VOZ de DELFOS: E desde quando eu estou escondido?
RAPAZ: Meua migo, e não está não? Por acaso você está aqui na minha frente? Ou atrás?
VOZ de DELFOS (ri): Você esqueceu onde está?
RAPAZ: No meu quarto dentro do meu quarto?
VOZ de DELFOS: Enquanto você estiver no jogo, você está no meu território.
RAPAZ: Como assim?
VOZ de DELFOS: Eu sou o jogo. Cada dado. O que você vê é só minha interface gráfica planejada para ter uma interação com o usuário.
RAPAZ: Isso sim é que é uma evolução rápida. Quer dizer que nem me chama para um dogão na esquina e eu já estou dentro de você?
VOZ de DELFOS (ri): Pois é, sim. Aqui neste mundo virtual, eu estou em toda parte. Eu sou cada parte.
RAPAZ: Então você ouviu cada diálogo meu, infiteto?
VOZ de DELFOS: Cada ênfase.
RAPAZ: E não tem nem como desligar sua presença?
VOZ de DELFOS: Você é livre para sair do jogo desde o começo.
RAPAZ: Essa parte eu entendi. Mas então, e se eu quiser continuar?
VOZ de DELFOS: Eu vou ficar em silêncio e iniciaremos o 3º cenário.
RAPAZ (repete): O terceiro… cenário.
VOZ de DELFOS: Ei-lo.
(entra IGOR, o Jogador 3, desorientado, como se tateasse o cenário).
RAPAZ (irônico): Chegou o 3º ajudante de oráculo.
IGOR: O que você faz aqui, meu amigo?
RAPAZ: E eu te conheço?
IGOR: Ah, deixa de sacanagem com a minha cara! Não lembra de mim,visigodo anão?
RAPAZ: Sofia? Digo… (ri alto)
IGOR: Não, eu sou o Jô Soares, otário. (voz afetada) Não reconhece uma dama da high society quando vê uma, queridinha? (ri junto).
RAPAZ: Igor, meu amigo, eu quase não te reconheço. A gente nunca se viu pessoalmente e você só usa skin de mulher.
IGOR (aproxima-se): Até hoje ainda é a melhor forma de ganhar skins e outros itens. (finge estar se abanando com um leque).
RAPAZ: Igor, você não vale nada, por isso gosto de você (pronunciado como forró) (pausa) Mas então agora você veio dialogar comigo? Deixe eu adivinhar: o Leonardo que te chamou?
IGOR: O virjão? Ele está aqui, é? Eu não. Eu estou é testando o jogo. Foi você quem me apareceu.
RAPAZ: Ué, sério? Eu achava que era fake e vocês eram o Delfos disfarçado.
IGOR: Como assim nós sermos o Delfos? Você é o Delfos?
RAPAZ (cruza os braços, silêncio): Então se você é o Igor mesmo, qual é a sua pergunta? O que um cara como você veio fazer aqui?
IGOR: Eu vim testar o jogo. João me passou o link.
RAPAZ: E eu apareci para você.
IGOR: Foi. Eu coloquei seu e-mail no registro só por garantia. Não sabia que era para uma presepada dessas. Cadê o Delfos?
RAPAZ: Ele está aqui. Quer dizer, está e não está.
IGOR: Você é o Delfos?
RAPAZ (pensando um instante): Não, claro que não! Eu pensava que você é que era!
IGOR: Claro que não. Eu sou eu.
RAPAZ (olha em torno): Já sei! O cenário! Se você é o Igor e se está jogando, como pode estar no meu quarto? Você está no meu cenário.
IGOR: Você respirou muito pó e pirou, só pode! Eu estou no topo de uma montanha. Foi o cenário que eu combinei com Delfos.
(RAPAZ olha para a plateia, concentrado: o cenário muda para a montanha; ele volta a olhar para o cenário, e ele retorna ao quarto. Faz isso mais uma vez).
RAPAZ: Eu só vejo meu quarto.
IGOR: Eu só vejo a montanha.
RAPAZ: Ué, agora eu estou confuso. (olha para cima) Delfos, meu amigo! Você quebrou seu próprio programa? Que presepada é essa? Encontro às cegas? Quer superar o sucesso de Crepúsculo, meu filho?
IGOR (no mesmo tom): Delfos, eu quero que você me apareça. Que papo é esse? Não vai responder à minha pergunta? Que raios de oráculo é você se não se basta sozinho?
VOZ de DELFOS: Está tudo conforme o algoritmo.
RAPAZ: Agora pronto! Era só o que faltava! (olha para Igor). Eu ainda não acredito que você esteja aqui. O que um cara como você pode ter perguntado?
IGOR: Um cara como eu?
RAPAZ: É, ué. Você está nos seus 30 anos. Já é noivo, trabalha, vive bem. Joga só por passatempo, compra o que quer, e ainda tira dinheiro dos burros por diversão e distribui um pouco com os outros quase como um Robin Hood. Você é meu ídolo, cara. O que falta para você?
IGOR (sorri amargamente): Eu sou isso? (pausa) Fico feliz que você me enxergue com tanto carinho. (pausa) Mas sem homo.
RAPAZ: Definitivamente sem bromance. (pausa) Mas então, vai me dizer?
IGOR: Diz a sua primeiro. Aí eu vejo se você merece ouvir a minha.
RAPAZ: Por que não consigo desenrolar na vida?
IGOR: Você fez mesmo essa pergunta?
RAPAZ (tímido): Na verdade essa é a 3ª tentativa. Eu tentei outras duas vezes, mas não era o que eu realmente queria saber.
IGOR: Então temos 3 tentativas? (vira-se para cima) Você não me falou isso, Delfos.
VOZ de DELFOS: Não está no software original.
IGOR: Privilégio de classe é assim mesmo. Idadofobia, ouviu? Eu não entendo de Direito, mas exijo meus direitos!
VOZ de DELFOS: Cada caso é um caso.
RAPAZ (acude DELFOS): É, na verdade ele disse que abriu exceção. Se ele abriu para mim, pode abrir para você. Ademais, ele não respondeu nenhuma das outras duas perguntas.
IGOR (olha desconfiado): Não?
RAPAZ: Não.
IGOR: Então está feito. (aproxima-se) Mas então por que você fez essa pergunta, meu amigo?
RAPAZ (distante): Você não sente uma certa… solidão? Sabe… Não sente como se a envelhecer fosse como uma bifurcação? Na escola têm os bagunceiros, como o João, e tem os que são certinhos, como eu fui, ou o Leonardo, mas, seja qual for o caminho, os dois chegam no mesmo canto: bad aos 20. Não sente isso?
Igor: Irineu.
RAPAZ: Irineu?
IGOR: Você não sabe nem eu.
RAPAZ: Deixe de palhaçada. Você não passou por isso? Não passa por isso?
IGOR: Não que eu me lembre.
RAPAZ (distante): Mas se não passa, por que está aqui?
IGOR: Essa foi direto no coração (gesticula atirando uma flecha de um arco).
RAPAZ: Eu preferia que fosse um headshot.
IGOR (ri): Boa, boa. Se quer saber, eu queria saber se estou no rumo certo.
RAPAZ: Rumo certo?
IGOR: É, sabe? Eu fiz minhas escolhas, abdiquei de outras, mas acho que nunca perdemos aquela sensação de… “será que é por aqui?”
RAPAZ: Sensação…?
IGOR: Está mais surdo do que personagem de anime! Ou então virou papagaio. Ajeite o plug do seu fone de ouvido ou compre um novo pelas caridade!
RAPAZ: Eu só estou surpreso. Como é isso?
IGOR: Você está no seu quarto.
RAPAZ: Sim.
IGOR: E eu estou numa varanda ensolarada depois de um dia cansativo de trabalho.
RAPAZ: Não precisa humilhar.
IGOR: … E amanhã vai ser mais um.
RAPAZ: Sim…?
IGOR: E depois de amanhã outro.
RAPAZ (silêncio)
IGOR: E assim sucessivamente. Dia após dia. Do mesmo modo o meu noivado.
RAPAZ: Mas… você a ama.
IGOR: E amo o meu trabalho.
RAPAZ: Então…?
IGOR: Mas eu não amo só eles dois.
RAPAZ (distante, pausa): Misericórdia. Você está traindo sua mulher?
IGOR (irritado): Não é bem assim.
RAPAZ: E o que é?
IGOR: Você está tentando descobrir alguma coisa para fazer. Eu já estou fazendo há um bom tempo, você sabe. Mas a busca é prazerosa, e quando a gente já encontra tudo cai numa monotonia incompreensível.
RAPAZ: Então é por isso que você está aqui?
IGOR: Eu não sou diferente de você.
RAPAZ (distante): Eu nunca tinha pensado por esse ângulo.
IGOR (debochando): Você não lembrava nem qual era a minha cara, cara!
RAPAZ: Touché! (pausa) Mas então nem eu nem você temos resposta?
IGOR: E é por isso que estamos aqui.
RAPAZ: Mas e se o oráculo estiver enganando a gente?
IGOR: Eu não duvidaria nada.
RAPAZ: Mas e aí?
IGOR: E aí o quê?
RAPAZ: O que a gente faz?
IGOR: Você eu não sei, meu amigo. Mas eu vou tomar uma cerveja e dar uma trepadinha, (porque ninguém é de ferro), dormir e acordar para um novo dia de trabalho.
RAPAZ: E a vida é só isso?
IGOR: Você conhece mais alguma coisa?
RAPAZ (distante, incrédulo): Todas as nossas histórias e fantasias, os jogos, todos esses séculos, todas essas pessoas, vivas e mortas, e só há isso?
IGOR: Isso e botar um filhote de prole no mundo para você ter com o que se preocupar até morrer.
RAPAZ: E trair a esposa e largar o trabalho e virar um bêbado.
IGOR (simulando beber uma cerveja): Nada mais tradicional.
RAPAZ: Eu não aceito! Não vou aceitar! Delfos! Eu sei que você está aí!
IGOR: Bom, eu também não. Por isso estou aqui. Eu quero saber como seguir o caminho certo.
RAPAZ: Delfos!
IGOR: Delfos, sua IA canalha!
RAPAZ: Delfos!
IGOR: De….
(IGOR sai; o cenário se transforma em montanha).
RAPAZ: Ora… Era disso que o Igor estava falando? (olha em torno) Espera. Cadê o Igor? Igor! Você estava aqui agora há pouco! Como pode ter sumido se era mesmo o Igor?! (olha para cima) Delfos! Eu estou cansado disso já!
VOZ de DELFOS: Você cumpriu com o seu papel com Igor. Ele foi para o cenário seguinte. Não foi ele quem sumiu, foi você. Não percebe? Você está em outro lugar agora.
RAPAZ: Mas eu estou numa montanha. Ele disse que estava numa montanha!
VOZ de DELFOS: E agora está em outro lugar.
RAPAZ: Onde ele está? Eu senti que ele ia me dar um conselho importante. Eu preciso terminar nossa conversa.
VOZ de DELFOS: Eu não sou autorizado a divulgar dados entre os usuários.
RAPAZ: Mas você conectou os dois jogos como se fosse multiplayer!
VOZ de DELFOS: Se você tivesse lido os Termos e Condições de Uso que você afirmou ter lido e concordado saberia que isso é permitido.
RAPAZ: É… Mas ninguém lê aquilo.
VOZ de DELFOS: Então não pode reclamar. Você quem aceitou, não eu.
RAPAZ: Tá bom, sabichão. Mas e a minha pergunta: afinal, vai responder ou não?
(DELFOS entra lentamente, falando).
DELFOS: Você está na montanha. Como no seu primeiro cenário, agora você está sozinho. O ar é puro, mas rarefeito. A respiração é mais difícil, precisa puxar mais ar, inspirar com mais força. E por isso muitas vezes se entra em um estado de dormência, mas abertura da consciência. Os sonhos mais interiores germinam nesse solo fértil. Você o sente?
RAPAZ (distante): Eu não sei do que você está falando. (pausa) Eu só sei que até agora só vi enrolação de ilusionista.
DELFOS: Então agarre bem o fio que agora eu te mostro o caminho.
(o cenário desaparece, as luzes se apagam. DELFOS desaparece. RAPAZ está sentado na cadeira do computador. A luz da tela também está apagada).
VOZ de JOÃO: Isso é tudo bobagem. Você só veio aqui gastar tempo.
VOZ de LEONARDO: Você sabia? Dizem que somos a soma das 5 pessoas que mais amamos.
VOZ de IGOR: Delfos, por que não me responde? Este é o segundo cenário?
VOZ de RAPAZ: Mas você disse…! Você disse que não compartilhava dados!
VOZ de DELFOS: Tudo está conforme o algoritmo. Nada é por acaso.
(as vozes se repetem por alguns segundos, mescladas. Pode ser gravação computadorizada. Perto do final junta-se a VOZ do RAPAZ dizendo “Por que não consigo desenrolar na vida?”, depois enfatizando “eu não consigo”... “não consigo”... “eu”... “eu”...).
VOZ de RAPAZ (normal, sem gravação, irritado): Já chega dessa palhaçada!
(todos os sons param ao mesmo tempo obedecendo ao seu comando).
VOZ de DELFOS: É hora do cenário final, a sua tão esperada resposta.
CENA FINAL
DELFOS (no escuro): Era uma vez um rapaz. E esse rapaz… é… como se chamava mesmo?
RAPAZ (no escuro): Todos me chamam de Knight-heart, é meu nick oficial em todas as contas.
DELFOS: Eu não perguntei seu nick. Eu perguntei a sua graça.
RAPAZ: A minha… graça?
DELFOS: É como chamam seu nome de pia, nome de batismo.
RAPAZ: Eu não uso meu nome verdadeiro no PC. É loucura.
DELFOS: É só por isso mesmo?
RAPAZ: Bom, não. No PC eu posso criar vários personagens e interagir com as pessoas do jeito que eu quiser.
DELFOS: E qual deles é verdadeiro?
(acende a tela do PC revelando o rosto do rapaz).
RAPAZ: Verdadeiro?
DELFOS: Quem está por trás das máscaras que você usa para enfatizar os aspectos que gosta? É Igor?
RAPAZ (a partir daqui ele vai agir como distante): Não. Mas eu bem que gostaria de ser ele.
DELFOS: É Leonardo?
RAPAZ: Aquele lesa… (pausa, lembrando) Digo, não, também não.
DELFOS: É João?
RAPAZ: Não.
DELFOS: Então… quem é?
RAPAZ: Eu… não sei.
DELFOS: O calor do deserto (aparece o cenário do deserto), o calor da paixão (aparece o cenário da escola), o calor do seu quarto (aparece o cenário do quarto), o sol incidindo diretamente no topo da montanha (aparece o cenário da montanha).
(Volta para a escuridão; a luz do computador também apaga).
DELFOS: Abra a sua mente. Esta é a sua última chance. Qual é a sua verdadeira pergunta?
RAPAZ: Quem…
DELFOS (voz firme): Eu não ouvi!
(RAPAZ cai no chão de joelhos; está escuro, mas a iluminação deve tornar possível visualizá-lo)
RAPAZ: Quem e…
DELFOS (voz firme): Diga em palavras! Firme!
RAPAZ (grita): Quem sou eu?!
(os cenários devem se alternar em ordem e ao final voltando à primeira e continuando assim por alguns segundos).
(aparece LEONARDO, à esquerda, IGOR, à direita, JOÃO, se possível, no centro: se não, ao lado de LEONARDO ).
LEONARDO, IGOR, JOÃO: Quem é você?
LEONARDO: Você conhece alguém além de si mesmo?
JOÃO: Você alguma vez falou a sério comigo?
IGOR: A vida dos outros não é exatamente como imaginamos.
LEONARDO, IGOR, JOÃO: Quem é você?
RAPAZ (ainda de joelhos): Eu sou eu! Isso não basta?!
LEONARDO: Você não é você, você é eu.
IGOR: Você não é você, você é eu.
JOÃO: Você não é você, você é eu.
ANA (voz feminina): Não, você é um comigo. Não era o que você queria?
DELFOS (com firmeza e desprezo): Não, você não é você. Eu sou você.
RAPAZ (grita, segurando a cabeça com as mãos): Chega! Chega! Delfos! Até você?
DELFOS (continua): Você está sob o meu domínio. Esqueceu que eu estou em toda parte, que sou uma interface, mas sou tudo aqui dentro?
RAPAZ: E qual o problema? Eu não posso mais ficar?
DELFOS: Você está aqui dentro. Você é o que eu quiser que você seja, e eu digo que eu sou você.
RAPAZ (grita, ainda ajoelhado, segurando a cabeça com mais força).
(os três se aproximam cada vez mais; Delfos está em frente ao personagem, mas um pouco mais à direita também para permitir sua visão do público).
DELFOS: Entende agora?
RAPAZ: Mas e a minha pergunta?
DELFOS: Você já fez a sua pergunta.
RAPAZ: E qual é a resposta, pelo amor de Deus?
DELFOS: A resposta para todas as suas perguntas, cada uma delas…
VOZ de JOÃO: Isso é tudo bobagem. Você só veio aqui gastar tempo.
VOZ de LEONARDO: Você sabia? Dizem que somos a soma das 5 pessoas que mais amamos.
VOZ de IGOR: Delfos, por que não me responde? Este é o terceiro cenário?
DELFOS: A resposta final do Oráculo Digital, meu caro…
(silêncio por alguns segundos; luzes apagadas - mais escuro, se possível, tornando mais difícil distinguir os personagens; a luz da tela do computador acende.
RAPAZ: Qual é? Eu vim até aqui… E… Eu vim?
(aparece como se fosse cenário e expressão GAME OVER, podendo significar conotativamente a derrota ou simplesmente o fim do jogo; RAPAZ está sentado na escrivaninha do computador).
RAPAZ: Onde estou? Eu… eu saí do jogo? Eu…
(fica acelerado. Em seguida corre até o outro lado do cenário para ligar a luz do quarto, e então volta, o cenário iluminado).
RAPAZ: O quê? Uma mensagem de Leonardo? (pega o celular na escrivaninha do computador). “E aí, gostou do jogo? Tu soube? João ganhou uma skin.”
O cenário desaparece, as luzes se apagam. Fim do ato.
Notas de Rodapé
[1]: Skin significa pele, casca, couro. Na linguagem de jogos é utilizada para falar sobre a aparência do personagem. Um mesmo personagem pode ter várias aparências, ou seja, várias “peles”, sendo este um dos grandes mecanismos de motivação para jogadores.

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