O verdadeiro prefácio
Foi lançada informalmente por O Útil Inútil o material "Percepção de Padrões: uma introdução à apreciação das artes", a qual logo deixei de lado para ir pras próximas brincadeiras. (Sou péssimo em organizar as coisas, pior ainda em prolongá-las). Mas tem uma coisa que sempre me incomodou marcadamente: o prefácio. Até pra mim mesmo o prefácio ficou uma bosta, e na verdade o que eu realmente queria dizer era outra coisa, mas me faltaram não as palavras, mas a abertura de uma trava no coração que, talvez, tenha conseguido abrir desta vez.
Terminei a leitura de "Notas para uma definição da cultura" de T.S. Eliot, pela conhecidíssima editora Perspectiva, acadêmica, que já erra no título, porque "para" tomado solto dá sentido de que as notas feitas são definitivas para a definição proposta, enquanto que Eliot usou a expressão "towards", "em direção a", implicando que não é uma resposta definitiva, mas comentários na tentativa de buscar algo que ainda não está fechado, como ele próprio admite, por se tratar de uma intuição a qual ele próprio não tem nem mesmo uma plena expressão. Erros de tradução, de grafia, de concordância à parte, a mensagem trazida foi importante, e, mesmo à parte a mensagem, o que importa aqui é que foi essa a obra que me abriu.
Vamos ao verdadeiro prefácio, ou ao menos o início dele.
***
Ainda que possa o pensamento acreditar que a vida não existe, mas ele existe sozinho, a verdade é que é da vida em primeiro lugar que tomamos as experiências e as provas de quaisquer pensamentos. É da vida que vem o pensamento, que não é nada mais do que uma tentativa de extrair dela seus significados, dos mais imediatos concretos aos mais longínquos e abstratos. Assim também este material não pretende ser uma exposição erudita e chique, mas uma tentativa de expressar o que foi percebido, ordenando essas informações de uma maneira que possa ser útil a outra pessoa. Nasceu menos de uma leitura excessiva do que de uma observação da vida, a qual registrei suas impressões como um pintor prolífico e viciado.
Antes deste houve um primeiro prefácio, ao qual não quero anexá-lo aqui porque partiu mais de uma mentira conveniente do que daquilo que eu queria de fato narrar. Eu queria descrever o que de fato gerou a iniciativa do livro, mas, por diversos motivos, não estava pronto. O principal deles é para mim uma mágoa profunda, e era ela que, na medida em que tentei deixar o material o mais impessoal possível, não quis começá-lo justamente com ela. Por outro lado, acabei por imaginar que, talvez, a experiência em si possa ser até mesmo de mais valor do que o próprio material. Então que seja escrito.
Não sou escritor, não sou pensador, menos ainda artista em nenhuma das artes de que falo. O que vocês veem aqui é antes a obra de um imitador. Eu, por mim, não me vejo como nada mais um um cão sarmento, desses doentes que circulam pela rua - caramelo ou não. Mas foi justamente por ocupar essa posição - não a nível socioeconômico propriamente dito, mas existencial - que tive o privilégio de perceber nas pessoas bondades e potenciais que outros não perceberiam. No fundo é isso o que eu quero expressar neste material, como forma de agradecimento a tudo o que vi. Minha mágoa se forma quando percebo que as pessoas que estiveram presente para mim nessa caminhada não são as mesmas que tirarão o devido proveito deste material, seja por incompetência minha por não saber chegar a elas, seja porque talvez não lhes interesse. não sei o motivo, mas acho que consegui aprender a sobreviver até que ele apareça.
O que estão nestas páginas sob a forma de um manual impessoal é aquilo de que peguei de empréstimo, e que minha alma tomou com tanta atenção, sem que nem eu mesmo suspeitasse que aquilo teria tal efeito. Foi o desenho de um olho de mangá por uma melhor amiga que me introduziu obcecadamente à técnica do desenho por um bom tempo, ainda que eu nunca tenha tido talento e ela só tenha feito isso: um simples olho, e me presenteado com sua amizade divertida; foi a influência de dois homens violinistas com quem muito me importo, e cujos momentos musicais me marcaram (mas também nunca consegui avançar no violão): suas imitações de música cigana, suas sugestões de circularidade das notas nas cordas do violão ainda hoje me encantam; foi o depoimento indireto da tia de um rapaz de vida pobre e atribulada, mas que parava por uma hora observando uma paisagem, "desenhando mentalmente", e, ao pegar o papel, mesmo sem nunca ter tido uma aula de desenho, desenhava a paisagem com perfeição, aperfeiçoando-se na técnica do desenho de maneira auto-didata, praticamente infusa; foi a convivência com um amigo que, não bastasse ser gênio na programação de computadores, também, desta inspirado por mim e outro amigo, aprendeu de violão em 3 dias o que uma pessoa normal não faria talvez em meses; foi uma pessoa muito querida por mim que, sem ter tido uma aula de cinema nem de estética nem de artes, de tanto ver filmes e séries com gosto, me mostrou composições de cena, como se relacionam os elementos, o que a cena revela do que virá no futuro, coisa que me impressionou mortalmente e a qual nunca eu teria imaginado; foi uma amiga talvez mais querida que a anterior, que, num divertido momento de música e dança, como num comentário de passagem e sem relevância para ela própria, me mostrou o quanto uma banda é influenciada por outra, como as técnicas vocais são reaproveitadas, e como estilos musicais mesmo de países diferentes se inspiram uns nos outros; foi, afinal, uma pessoa a qual devo minha espiritualidade, que me falava de uma tal "vozinha" interior, e cuja meditação me abriu um mundo. Não acrescento nesta lista as sugestões fortuitas vindas de pessoas como essas que mudaram radicalmente minha vida, nem as situações que presenciei, também envolvendo pessoas, que igualmente abriram investigações em mim das quais não pude mais me desfazer.
Em suma, se conto esses casos acima, é porque é isto o que vocês verão neste manual. No fundo, são essas pessoas. Por fora, são as técnicas que elas me inspiraram. Há, porém, uma coisa que supera todo este material e que é o motivo de eu resolver contá-lo: no fundo do fundo, de cada caso desses, há o Amor. O Amor pelo mangá, o Amor pela música como pelo violão em particular, o Amor pelo desenho; o Amor pela programação e depois pelo violão; o Amor pelos filmes; o Amor pela música; o Amor pela atenção interior. E, dos casos não contado, um a mais merece ser posto aqui: eu sei que não surge amor por um objeto de forma espontânea em si. Surge uma inspiração, geralmente dada por alguém executando a habilidade. É, por assim dizer, uma tradição de admiração do novo pelo velho, que leva ao seu prolongamento; assim que imagino o nascimento de cada novo repentista, ao ver um mais velho tocando e aquilo, por sua vez, tocando as cordas do seu coração. É assim, por exemplo, que me meti com computadores, ao admirar um grande amigo meu, apesar de ter tido pouco contato com ele; é também, portanto, não os objetos, mas estas pessoas que estão presentes no meu coração, e que, mais do que sua amizade, me mostraram um talento seu. Se me irrito profundamente é porque era para ser um talento delas, de cada uma delas, mas, seja lá por quê, elas próprias não perceberam em si mesmas o que eu percebi nelas. É para mim uma maldição grotesca que eu tenha tido a chance de absorver o que elas tinham de tão incrível, e, pela capacidade de ordenar essas pessoas na minha alma, produzir algo que supera cada parte, em certo sentido, enquanto elas próprias se estagnaram na vida. Eu esbravejo de melancolia autodestrutiva: não só perdi cada uma dessas pessoas da minha vida cotidiana, como, do pouco que ouço delas, vejo o quanto estão distantes daquilo que - talvez eu esteja errado - poderia ser seu grande talento, ou ao menos estar ligado a tal. Não bastasse estarem distantes, vivem melancólicos, sôfregos, vivendo uma vida abaixo de tudo aquilo que, talvez, pudessem estar vivendo. Eu me perguntei energicamente, e ainda pergunto: seria por que no fundo não lhes era tão importante assim, e eu me apaixonei sozinho? seria por que não perceberam, ou, ao contrário, perceberam, queriam, mas de tanto sofrerem na vida, resolveram apagar sua própria chama interior? Eu não sei, e talvez nunca saiba. E talvez quando souber não sobre mais tempo nenhum, exceto ou para lamentar "o que podia ter sido", ou para ir até onde a idade permitir, ainda que não seja tão longe quanto seria se notado outrora. Como não se perder na melancolia do grande drama da vida: poder ser algo a mais, mas temer sê-lo?
Para além dessas, há muitas outras pessoas, as quais sei que devia incluir, mas se cito aquelas e não tantas outras, é porque foram elas que marcaram primariamente a decisão deste material. No fundo, fiz para elas, sabendo que talvez nunca lhes sirva, e talvez nunca nem saibam sequer eu eu o fiz - e aqui eu conto com minha pusilanimidade.
Este material só tem valor se visto não pelo conteúdo, mas enquanto técnicas, e, por trás da técnicas, pessoas, possibilidades de existir na vida, cujos materiais concretos - a música, a pintura, os filmes, mesmo a meditação - se tornam a base para expandi-las em nível abstrato. A única parte em que eu me insiro propriamente é na conclusão: se todas essas pessoas estão no meu coração - e, acreditem, são dos mais variados tipos, mas gosto, do meu jeito, de todas -, em certo sentido todas elas são unificáveis, ao menos na minha pessoa. É o cachorro sarmento que, vagando pela rua, coletou os carinhos que recebeu, de pessoas diferentes, e percebe que todas elas, apesar das diferenças, são no fundo uma só, a partir da sua perspectiva. É curiosamente essa perspectiva interior, cuja palavra talvez seja humilde, embora eu enquanto pessoa não o seja, unificadora do diverso, que, me parece, é a grande questão herdada sobretudo do século XX. Um sistema fechado demais em si mesmo eventualmente vira genocida; desordenado demais vira o caos, pronto para ser dominado. Sejam os movimentos totalitários do século passado, sejam, por exemplo, as inúmeras tribos indígenas brasileiras, ou o multiculturalismo contemporâneo, a procura de um equilíbrio do diverso e do um é a grande questão que se coloca. Não que seja nova: a tradição grega nasce da busca do "Um", seja por Pitágoras, seja por Parmênides, e do contraste com o visível: o "Múltiplo". Parmênides e Heráclito, tentados a serem sintetizados desde então, a partir de Sócrates em diante. O que minha alma de cão oferece é nada mais do que um depoimento pessoal, que atinge seu ápice, apesar de ainda em rascunho, na noção de "Padrões".
[...]
O resto do prefácio bem poderia ser uma adaptação do primeiro. Fica para outro momento.
Comentários
Postar um comentário